terça-feira, 19 de julho de 2011

Valor do Trabalho




Um senhor de camisa azul se sentou ao meu lado na parada de ônibus, observando o movimento. Pensei: daqui a pouco trocaremos os papéis e eu serei a senhora aposentada a divagar sobre a paisagem. E ele disse: quem não trabalha, não tem valor. O trabalho é fundamentalmente importante, reconheço. Mas a partir do momento que ele passa a excluir e a fazer pessoas se sentirem exiladas, mesmo estando em sociedade é algo relativamente questionável.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Noite Perfeita



Fui a palestra do Lama hoje. Parei na entrada para ver o cartaz que estava na fachada e nesses milésimos de segundos um Palio colidiu com uma Kombi que tinha parado na faixa. Dois desconhecidos que nunca haviam se falado antes vão começar uma conversa agora, pensei. Se uma conversa é de fato, uma forma de contato, o carro batido os uniu para um diálogo que poderia muito bem começar com o costumeiro “Você está bem”.

Acidentes a parte, o Lama nos disse que a vida nos proporciona um tabuleiro e que temos que escolher a peça que seremos. A visão do tabuleiro é indissociável da visão do jogador, ou seja, a visão do externo vai depender única e exclusivamente de nossa visão interna. Se vemos um paraíso, é porque ele está primeiro em nós.

O ponto alto da palestra foi quando ele disse sobre o sofrimento. Logo, não adianta pedirmos pela compaixão, devemos ser a compaixão. Se alguém está sofrendo, não devemos ficar imóveis pedindo que a situação melhore, pois temos toda a capacidade de fazê-la melhorar. O mundo dos deuses na roda de samsara funciona assim: eles acham tudo perfeito e lindo, mas não agem para ganhar a iluminação e saírem enfim da roda da vida. E o que move a vida em si, não é a economia ou algo do tipo. É pura e simplesmente a compaixão: fomos criados em um lar que nos acolheu, nos proporcionou todas as possibilidades na medida do possível para chegarmos onde estamos e tudo isso, aconteceu porque havia compaixão. Posteriormente, os filhos ajudam seus pais, em retribuição a esse sentimento de compaixão. O que mais me anima é que estamos em terra pura e basta a semearmos, para recebê-la.

Queria muito mesmo que o diálogo da batida iniciado com “Você esta bem” estivesse arraigado dessa mais pura compaixão, afinal, é por ele que estamos nos movendo agora.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Todos os bebês nascem mal-humorados




A sensação de um nascimento é a mesma de quando estamos quentinhos numa coberta macia e ela é puxada de uma vez, destampando todo nosso calor, nosso sossego e nossas vergonhas. E ainda, sem ninguém para dizer "Tchan-tchan-tchan-tchan".
Se o bebê não for capaz de chorar com esse fato, apanha de leve. É muita violência para os primeiros segundos de vida... Mas, é uma imagem que gostaria de ver: um bebê nascer sorrindo, dizendo para si mesmo: "não importa, nada vai tirar meu bom humor hoje".

terça-feira, 7 de junho de 2011

Abandono



Eu amo quem fui: minhas incertezas, minhas angústias, minhas dores, meus medos.
Amo todos os passos que me trouxeram até aqui.
Amo o fato de ter a oportunidade de cuidar de mim de uma maneira diferente ou igual todos os dias.
Amo poder decidir minha roupa, uma maneira nova de entrar no carro, uma maneira de dançar com meu cachorro enquanto ele tenta fugir sorrateiro.
Amo experimentar uma nova fruta, um novo cheiro...
Mas não sou quem dança, quem lê, quem canta.
Esse é um estado que logo irei abandonar.
E será um abandono com a mesma sensação de chegada
Porque escolho fazer dele, não o inevitável, mas tudo o que é mais desejável

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Porções de Sabedoria




Fui comprar uma água de coco no bandeirante.
O senhor que me vendeu, acabou me contando um conselho que ele tinha ouvido na infância que era: para agir com lucidez diante de uma ofensa, pense três vezes no que dizer.
A primeira opção sempre é a pior e a mais encoleirizada pelo calor do momento. A segunda, mais amena e a terceira, a mais adequada.
Agir com prudência é apenas pensar três vezes sobre a mesma coisa, só que em ângulos diferentes.

Para finalizar, ele ainda me disse para agradecer a tudo, inclusive as palavras que nos ferem.
Desse modo, agradecemos a oportunidade que temos, de ouvir, enquanto muitos não a possuem.

Sabedoria Total!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mundo Perfeito





O topete do meu cachorro estava a coisa mais linda de ver no mundo
Quando eu esfrego seu pelinho como se não houvesse amanhã ele se arrepia e faz: hummm...Mas só da primeira vez. Da segunda, ele já fica imune.

Hoje senti o calor aconchegante do sol e o frio da sombra
A maciez da roupa recém-passada e o cheiro do creme de cabelo

Ao sair de casa, pela primeira vez, ganhei um sonoro bom dia
De um rapaz de bandana
E uma imensa moita cantarolava com alguem dentro.

Nessa existência, não escolhi ser médica
Apesar de que,
Gostaria muito de ajudar na descoberta da cura para a aids, para o câncer, para a tristeza da alma
É por isso que com um precisão cirúrgica
Costurarei meus pensamentos e ideias para que tragam leveza
Para que sejam o sorriso que falta
O carinho que desperta, o abraço que anima.
Por que as palavras podem estar tão presentes como nossa vontade.

E assim, num dia de mundo perfeito
Ouviriamos bossa nova até o cair da noite
Vestiriamos roupas de chita com muitas cores
Dançariamos sem pensar em nada,
Convidaríamos um passarinho para um dueto
E pegariamos alguém no colo antes de dormir

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Elefante




Uma criança ao descer do ônibus perto do zoológico, gritou eufórica : “O elefante, o elefante”.
De onde vem essa euforia pelo simples avistamento do elefante? Ok. O vemos somente em duas dimensões pela TV e quando ela toma corpo, sentimos então que ela sai do irreal para o real... E quem definiu que isso seria motivo de euforia? Todos os nossos desejos são baseados em construções de nossa mente que quando se realizam, nos tornam potencialmente eufóricos. Quem construiu primeiro o pensamento de que o elefante é algo bom de se ver? Se todos nós tivéssemos essa mesma euforia ao avistarmos qualquer fato cotidiano, nossa vida teria: “o sol, o sol”, “o engarrafamento, o engarrafamento”,“o chefe, o chefe”, “o beijo, o beijo”.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sobre meus ultimos ensinamentos



O díficil não é estar com ele.
É estar comigo, quando estou sem ele.

Assim como eu, quem convive comigo renasce como uma nova pessoa todos os dias.
Faz todo sentido experimentar todo e qualquer tipo de contato como algo completamente novo.

Quando digo que amo, o amor não deve doer. Se dói, é qualquer outra coisa, menos amor.

A dança de contato e improvisação é saudável aos esquizofrenicos e psicopatas.
Por meio do corpo eles tem a experiência de limite, e o limite fornece uma sensação de realidade.

Ser mãe é ter a experiência de ter uma parte sua, fora de você.
E se olhassemos cada pessoa como um ser que é parte nosso, fora de nós?

O sexo desestabiliza o sistema nervoso, hormonal, respiratório. O gasto excessivo de energia, leva nosso organismo à exaustão .
Se todos nascemos com um instinto de sobrevivência, por que somos impelidos a todo momento à nos exaurir?

Por que a dor é importante?
Quando ela aparece, é impossivel pensar em outra coisa: a sua mente recebe um foco, que é basicamente a unica coisa necessário para a meditação.

Se você tem um conflito interno, pode não se achar pronto para servir.
Mas é servindo que os conflitos vão começar a se solucionar.

Não existe mal.
Isso é só um nome para quando nossa energia não flui diretamente para a fonte criadora.

Todas as nossas ações se originam de uma fonte criadora.
Quando todas elas são realizadas tendo como intuito a celebracao à essa fonte, ela retorna à sua origem, (como quando fazemos algo que gostamos).
Para retornar a origem essa ação precisa ser imbuída das virtudes provenientes da fonte: bondade, justiça, amor.

E se Adão tivesse sido o primeiro a morder a maçã para oferecer à Eva?
A raça masculina seria a culpada pelos males da humanidade?

Por que tantas mulheres rejeitam seus filhos?
Uma boa explicação é que o tal instinto maternal não é tão instintivo mas, possivelmente adquirido por meio da cultura.

Eu sou um ser criado para o amor.
Pela minha necessidade de amar ser infinita, imprimo amor a cada gesto, a cada ser, a cada respiração.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Ensinamentos de Lama Padma Santem





Dalai Lama chorou quando seu filho morreu: não por apego ou saudade, mas por compaixão. Como seu filho já era um mestre, ele refletiu sobre as pessoas que iriam deixar de ouvir seus ensinamentos e serem liberadas do sofrimento através dele.
Os mestres dançam em meio ao mundo. Eles se aproximam das pessoas mas não pensam baseados em emoções.
A maneira que você olhar um arroz pode fazer você atingir a iluminação ou ir para os infernos. Por exemplo, na ganância, você vai para o reino dos famintos. Assim, não se deve evitar os diferentes lugares, porque todas as manifestações do mundo alimentam sua prática.
A sala de conferencia é a cadeira? Não. É a parede? Não. No final não sobra mais nada, porque a sala não é. A ilusão é achar que o todo se torna algo muito sólido, indestrutível, mas nosso medo se torna infundado quando percebemos que tudo que muda, não é.

Ansiedade, crianças, descobertas


Me cobrei o para não sentir ansiedade hoje, inutilmente por três vezes. Ah! Como as crianças são felizes! Elas precisam de um pouco de comida e carinho de suas mães. E pronto: no mundo não existem mais problemas. Elas brincam com um pneu velho, uma bola murcha ou um papel rasgado. Então, percebi que a maior parte das vezes que estou feliz é porque estou dando espaço para descobrir algo como se fosse a primeira vez que estivesse olhando-o: exatamente como uma criança faz. A atenção dela se concentra ali, tão somente em sua descoberta.

Me senti imensamente importante por participar da primeira reunião do CEBB (Centro de Estudo Budista Bodisatva)em Brasília. Falamos sobre dukka (a alegria junto ao sofrimento): eu caso, mas com a preocupação de se ser traída, estou num novo relacionamento mas tenho medo de ser abandonada. Será que não existe uma felicidade verdadeiramente isenta de algum mal?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Meu Espaço




Tenho trabalhos voluntários onde as pessoas me tratam com uma ternura que geralmente eu não dispenso a mim.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Espera


Eu queria não ter que precisar esperar
Esperei para nascer, crescer e menstruar
Esperei por um cachorro, por um bom vinho
Até o momento de parar de gostar de experimentar
Eu me sinto me debatendo contra meu próprio corpo usando só a minha mente

Ele está em algum lugar do universo, talvez pensando em não pensar mais sobre nada
Ao mesmo tempo que está, já se foi
Volto ao meu estado de espera que às vezes se torna angústia, as vezes só saudade
Fome inóspita essa tal de ausência que nunca se sacia

Agora eu entendo um pouco de Deus
Por querer estar perto da gente o tempo inteiro,
Ele consegue estar em todo lugar

Uma Declaração de Amor Eterno




Entendo todos os seus desejos enrustidos aí dentro, querendo sair com explosões sucessivas. Sei que agora você sente frio e um aperto em sua garganta. Sei que você acabou de tomar chá para relaxar e que queria na verdade fazer uma viagem no próximo feriado.

Sei que você mantém vivo o seu amor por olhar nos olhos de quem a olha de volta, mesmo que seja apenas o seu cachorro.
Que você não quer depender de nada para ser feliz a não ser a você mesma.

Só eu sei do cheiro do sabonete do seu banho de erva doce, o gosto do doce leite da sua geladeira, a textura da tua toalha de banho, o barulho da chave quando você sai e a alegria que te invade ao ouvir a música que gosta.

Eu amo a maneira que você sorri, que você chora, que você coloca a sua mão no rosto quando não acredita no que acontece. Adoro suas batidas sem açúcar, a maneira que você dança quando cozinha e a forma sincera de querer ajudar a quem quer que seja.

O teu sonho de distribuir felicidade torna-se real todas as vezes que você acorda.
Vamos sair para ver o sol, tomar chuva ou passear na areia,
Vamos subir numa montanha ou ler um livro no metrô,
Vamos fazer nosso próprio conto de fadas com final previsivel.
Porque eu sou você. Sempre fui.

Sobre



Sobre a fala:
"As pessoas passam tanto tempo pensando no que dizer que não falam o que precisa ser dito".

Sobre o começo:
Para haver um começo, tudo tem que chegar ao fim.

Sobre as lembranças: Já que tudo muda o tempo inteiro, pelo menos as lembranças são permanentes... Não é legal a sensacao de proteção que o permanente proporciona?
- Mas o bom é que determinadas lembranças também podem ser esquecidas


Sobre o medo:
Passei à noite no Museu da República enquanto algumas garotas de programa subiam aos seus postos. Na volta, havia eu e uma moça. Olhei para trás umas duas vezes para saber se ela vinha em minha direção. Após algum tempo minha suspeita foi confirmada.
E ela disse: "Não fica com medo, só queria pedir dinheiro para comprar um lanche".
Como é tão fácil da outra pessoa perceber se estamos com medo ou não? Conseguimos dissimular tão bem nossos sentimentos, mas o medo é sempre assim: escancarado.

Sobre meu passatempo:
Encarar o biscoito e imitar o que ele faz para ele ter a consciencia de que existe no tempo e no espaço.

terça-feira, 29 de março de 2011

Chovia



Eu queria realmente escrever um conto de fadas com todos aqueles vilões, mocinhos, tragédias e reviravoltas. De certa forma, contar um pouco daquilo que escrevo com gestos e palavras.

Foi assim que numa noite eu o encontrei.
Ele estava usando óculos, jeans e tênis de corrida.
Estava só, esperando os demais colegas de trabalho chegarem.

Quando sentei ao lado dele, começamos a conversar sobre as atividades do dia e as crenças que nos faziam continuar nelas.

Assim que a madrugada apressou o passo em minha direção, devolvi o respiro de minha alma cansada

No outro dia, o turno de trabalho dos colegas chegava ao fim, e ele deveria ficar de plantão.

Se o deixasse na sala, já saberia exatamente o que esperar do meu sono.
Optei por ficar e aguardar o que não poderia prever.

Chovia.
A umidade acalentava a pele e o ar manso anunciava que a terra dançava em contato com os pingos que cumpriam sua breve trajetória.
Ele segurou minhas mãos, olhou nos meus olhos e perguntou sobre mim, envolvendo-me num abraço.

A ternura em sua fala me conduziu ao seu colo.
Enquanto a noite continuava sua canção harmoniosa em estrofes de chuva.

#perfeição

Meta: Um Jantar


Marquei um encontro comigo mesma no aeroporto de Brasília. Meta: um jantar.
Ao sair do carro, coloquei uma flor no chapéu da estátua de Dumont no estacionamento para torná-lo um pouco mais vivo, não que ele precise como alma, mas sim como forma de concreto.

Minhas impressões:
Me senti conectada às pessoas que pararam no Spoleto naquele dia para jantar. Todos nós estávamos vindo de algum lugar, e nos encontramos um pouco antes de irmos para outro. É assim que talvez três pessoas, ao comerem fora em mesas separadas, podem se comunicar mais que três dividindo uma mesma mesa, em casa.

Senti o cheiro da loja de chocolates: era parecido com o do chocolate de guarda-chuva barato que comprava na minha infância e que antes da descoberta da gordura trans era uma lembrança inócua.

Descobri que é fácil não ter depressão quando se é criança, porque além dos muitos exercícios, se costuma ver o mundo um pouco de cima, já que tudo parecesse menor quando se está nos ombros de um pai.

Uma linda criança foi colocada em cima do batente da janela que dava para os aviões estacionados. Minha mais nova tradução para liberdade e proteção talvez esteja nessa imagem: um vidro a isola, uma mão a segura, mas por estar na ponta dos pés e fora do chão, sentia-se momentaneamente livre.

Ao fim, resolvi abraçar uma árvore. Pude sentir meu pulso. Da última vez que fiz isso, chorei compulsivamente. Dessa vez, me senti como se tivesse encontrando minha própria natureza intima, encarando-a como ela é, não como precisa ser.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ex-novel



Fui ver o nascer do sol: parte das nuvens adquirem momentaneamente um tom avermelhado, bem diferente e o frescor da grama evaporando a umidade da madrugada é uma delícia. Há quanto tempo vim silenciando meus sentidos, não dando à eles a oportunidade de conhecer e sentir a beleza na efemeridade ? Pensei em falar para o meu chefe: te olhar me faz feliz. Pensei em entrar no MSN para falar com meu ex, nem sei por quê, já que eu o ofereci minha amizade e ele me retornou a indiferença.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O olhar



Sai para comprar uma caixa de som, mas todas as lojas já estavam fechadas. Andei mais um pouco até o shopping por conta do sabonete do banheiro que tem um cheiro afrodisíaco. Na fila do ônibus para voltar para casa, resolvi ler o livro “Amar ou Depender”. Um senhor passou na minha frente e enquanto ele olhava profundamente para mim, eu retornei o seu olhar. Ele me disse um enfático oi que eu respondi com um simpático tudo bem. Senti que por segundos olhando um nos olhos do outro estivemos conectados. E isso valeu a viagem.